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Descobrindo Bandas


top 10

aqui vai a lista crítica - na ordem - dos meus discos preferidos do ano de 2008, que para mim reforçou mais um pouco a síntese de que música e arte em geral são mesmo ciências para quem já cresceu, ou para quem está paralisado no meio do processo (bradford cox, por exemplo). e para quem as questões da (ou de uma) indústria, seja qual for o tamanho dela, interessam pouco. acho que do grupo de audições obrigatórias, só deixei of montreal de lado, por uma certa falta de vontade que se abateu. adoro essas listas e não tenho dificuldades com elas. minhas melhores postagens no ano provavelmente são essas.

 

 

1 - dungen: 4

 

2008 exigia-me entender que a arte (a imprevisibilidade, em si) às vezes está à vista, por mérito nosso; palpável, simplesmente. esse disco, firmado em um diálogo nu com o rock de vanguarda europeu de outra época (focus, caravan), é feito 30 e tantos visíveis anos atrás de nós, nem por isso não-imprevisivelmente. 4 (o quinto da carreira da banda de Gustav Ejstes) é um álbum sábio, principalmente, balanceado entre a idiotice jâmica e o divino senso melódico que a justifica como ingrediente ambiental; e eu não quero descrever o poder que pode exercer sobre quem consegue construir o túnel até ele.

 

2 - m83: saturdays = youth

 

não é estranho que os meus dois preferidos do ano reconstituam átomos (d)e IMAGENS de épocas que não existem mais? a questão comum aos dois, e aí a arte se anuncia, é que o processo de reconstrução de imagens, de 1975 lá e de 1986 aqui, não importa tanto quanto o simples e misterioso impacto que essas criações exercem. são como filmes de época rodados com maestria, algo tão raro no cinema quanto na música.

 

 

3 - beach house: devotion

 

não sei o que formular sobre devotion a não ser que algo faz muito sentido realmente quando ouvimos aqueles 10 ou 11 relatos sobrenaturais com canto, órgao e guitarra e confrontamos tal material com o próprio título escolhido: o disco é uma religião fundada a dois, para lamentar (ou musicar) alguma coisa que consegue me tornar devoto também durante 45 minutos. o mistério sagrado que costumo perseguir na música tem um grande representante aqui.

 

4 - walkmen: you & me

 

é um disco sobre um natal que aconteceu há mais ou menos uns dois natais, e isso já seria suficiente para provocar interesse. o que ensina you and me é que a criação de hoje pode assombrar amanhã, simplesmente por ter sido feita como foi feita, por quem foi feita. pense nisso enquanto estiver fazendo um disco. you and me é um disco-ontem, fantasmagórico, com direito a bateria envolta por guitarras que soam como enfeites e sinos desse natal perdido.

 

5 - bradford cox, com atlas sound e deerhunter: let the blind people lead those who can see but cannot feel + microcastle/ weird era cont.

 

em suma, bradford faz música para ambientes de água com ar dentro. daí a imaginar que um de seus álbuns poderia ser a trilha definitiva para bob esponja. dito isso, se falarmos de microcastle, a primeira parte da obra alucinada em dois atos do deerhunter, temos o verdadeiro pós-rock: reencontramos os códigos originais do estilo (de ventures e beatles a joy division e pavement), só que revividos (jamais repensados!!!!!!!) de forma moderna e ineditamente desnorteante. na segunda parte, temos o equivalente a uma banda de rock de garagem de um menino espinhudo que procura fazer o que não sabe fazer e acaba fazendo o que ninguém mais pode. let the blind, do atlas sound, basicamente elabora tudo o que nos dois discos do deerhunter parece rascunhado e casual. três belíssimos (e complementares) discos em um ano só. eu nunca tinha visto nada igual, e me perdoem pelo clichê dessa frase que neste momento deve estar sendo redigida igual em diversos lugares.

 

  (bc)                  (slf)

 

6 - stars like fleas: the ken burns effect

 

um dos mitos interessantes é aquele que se refere aos discos da máscara de ferro. diz, esse chavão, sobre a obra que vai sendo lentamente descoberta (e mitificada), geração à geração (ainda que cada geração hoje tenha mais ou menos 1 ano), por ter, em sua época exatamente, passado batida. foi esse disco que, coloco minhas fichas, 2008 reservou para a linha. não que sua importância em si não seja grande: é justamente a importância de não servir a ninguém - embora folk-prog, não é um disco jovem, não é um disco velho, não é um disco-pitchfork. sua importância é, como todas as grandes importâncias na arte, sensorial e individual. o material em ken burns é milimetricamente pensado e formulado para ganhar vida e, com tendências agressivas, existir sozinho, como uma criatura selvagem que vaga por i-pods e pela história da música.

 

7 - fleet foxes: fleet foxes + ep

 

confesso que não sei muito bem o que dizer sobre esse disco, e não porque ele não ofereça dados suficientes para serem ditos. é que esses dados já me parecem realmente cansados (já falo sobre cada um deles há 2 anos) e não dão conta de resolver o essencial, a experiência com o álbum e com a música. esta, fato, é de uma beleza, o que falar?, óbvia. o ep é a mesma coisa, e está aí exemplo de banda que não deverá adicionar, importar coisa concreta para a música em sua trajetória, a não ser talvez reforçar a imagem "sonora" desse neo-hippismo indie Obama banal que nasceu em 2006 (é ótimo pra colocar na capa da Ilustrada, do times, elencar as influências do passado, etc). em todo caso, quem se importa? a arte está à espreita, se mascara dentro das almas e longe da teia cultural, que recebe apenas sua versão adequada (do verbo adequar).

 

8 - plants and animals: parc avenue

 

tenho a impressão de que o que vai diferenciar fleet foxes (uma lenda futura) e plants and animals (fadado ao colecionismo) dentro do livro desse estilo (pós-country) e da própria música nova é o fato do fleet foxes falar melhor com os dummies. a maioria do mundo portanto. a banda de seattle constrói seu pós-coutry através do imaginário consagrado do estilo. saber fazer isso magistralmente bem como fazem é outra história, mas é óbvio que ver correr o sangue não de young (isaac), mas de stills (ismael), não vai facilitar a vida posterior da banda de montreal em termos de reconhecimento. em todo caso, uma das minhas bandas favoritas.

 

9 - lupe fiasco: the cool

 

 

há na música contemporânea uma particularidade da qual ainda me considero leigo, mas que, já entendi, meio que normatiza as grandes obras: essa particularidade é uma tensão profunda entre erro e acerto, entre momentos altos e baixos. talvez porque a música (as que descendem do hip hop e da eletrônica sobretudo) esteja aprendendo com a narrativa do cinema contemporâneo, que pressupõe que a própria vida e seu fluxo abstrato estejam sendo filmados. esse the cool é exemplo bem-acabado disto, e se é um grande disco o é porque oferece gama enorme, quase insana, de facetas (mais e menos interessantes), e parece exigir, entre elas, uma corrente inconstante de sentimentos. algo parecido com a que experimentamos em nosso (cinema) cotidiano. não à toa, foi pensado como trilha para filme hipotético. ah, claro, também coloca o hip hop em patamar lírico que presenciamos antes só com a tribe called quest.

 

10 - tv on the radio: dear science

 

eu desenvolvi certa restrição a esse disco no começo basicamente por dois motivos: o achava capenga da metade pra frente e não aceito a impressão de que é o álbum definitivo da banda, coisa que de fato, categoricamente, não é (este que é foi gravado em 2006). eliminada tal crise que diz respeito mais à minha relação justamente tumultuada com leituras diversas do que com a obra em si, temos um disco, sem dúvida, de envergadura. como álbum de alegre e impetuoso flerte com um certo filão da história musical (o dos brancos intelectuais que adotaram a música negra), ele opta, no final, por um caminho (paul simon a, nova iorque anos 80, bacharach) que me parece de fato trilhado de forma menos vigorosa do que o escolhido no início (peter gabriel, prince, paul simon b). mas ainda sim é de uma poderosa (e inovadora) contemporaneidade lírica no todo. obviamente, ao lado de grizzly bear, deerhoof, etc, o tv é uma exceção à regra que sugeri acima: classicistas que são, com esses a compreensão com os momentos baixos deve, sim, ser menor.

 

 

algumas menções mais do que especiais:

 

ruby suns - sea lion

 

shearwater - rook

 

instiga - tenho uma banda

 

parenthetical girls - entanglements

 

sondre lerche - dan in real life



Escrito por claudio às 15h14
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