cultura não serve pra nada
inimigo meu
tenho sido constantemente encontrado por uma frase que reconheci, ou que, sei lá, conheci recentemente. um amigo me transmitiu um texto que me fez "lembrar" (de qualquer forma lembrar, porque a idéia sempre habitou meu consciente) dessa sentença que, não absurdamente, veio dos pensamentos de quem veio e se encaixa como bom mantra e resposta mais ou menos a todos os episódios que observei até hoje na vida externa.
a cultura é inimiga da arte.
jl godard em jlg por jlg, quem mais poderia, disse.
já sabemos que indústria e arte formam nosso conflito mais conhecido em termos de formação de uma sensibilidade ocidental: a indústria financia, em menor ou maior escala, a criação humana e sua proliferação. isso é consagrado.
mas godard, com essa frase, escancara um grau posterior, mais nítido e melhor. aquilo que o bom senso humanista, revisionista de nossas comunidades desenvolvidas possui de mais peculiar. a cultura é a fila do teatro. a cultura é "a cor do som" da capa do guia da folha dessa semana. a cultura é a vila madalena. a cultura é a própria esquerda. a cultura é o revisionismo - longe de spike lee, um artista, mas presente nessa besteira insuportável que é a manifestação urbana da periferia paulistana. a cultura é o... folclóre. é a identidade de um grupo, de um povo. é o norteamento.
a cultura é a beleza das tradições exóticas inacessíveis ao nosso convívio urbano. a cultura é a bravo! a cultura é um coletivo em busca de uma equalização civilizatória: e o ódio ao individualismo. a cultura é você ouvir uma música e poder escrever longa redação sobre como as referências nela se alinham. é fácil fazer, porque 90 % do que chega é cultura, mas prefiro não poder. é a própria redenção, na teoria, pela união.
a arte é o golpe em tudo isso. só há uma arte, a que assombra. a que desvirtua (não a civilização, mas sua sensorialidade, a sensorialidade que há em seus objetivos como núcleo evolutivo). por mais doce que (a arte) possa ser (beach boys, ozu...). é a desunião, como demonstram os próprios garotos da praia. é a identidade de brian wilson.
a arte está (quase invariavelmente) longe dos cadernos culturais, está (a não ser em camuflagem involuntária) longe dos nossos eventinhos culturais, está longe de nossas conversas culturais. via de regra está longe das mobilizações, associações e estratégias culturais. e é assim que tem de ser. e não adianta sintonizar, porque a sintonia não é do mundo. (o local, pelo menos; nos eua e na europa há mecenato não-declarado e paralelo).
em termos da "nossa música", há dois anos decidi ter essa seguinte relação com a grande biblioteca musical azul (a única solução para uma formação musical sólida e de graça, que por sua vez é a única opção viável), com os instrumentos e com o myspace: só prossigo (a baixar, a fazer, a escutar, a descobrir) com aquilo que vai me machucar. e essa possibilidade está na arte, jamais na cultura, que é o remédio social por vocação.
www.myspace.com/thedears (entre os baixados recentemente)
http://www.myspace.com/glennandglenn (entre os descobertos recentemente)
*claro que serve, afinal quem mais eu convidaria para ser meu secretário de planejamento em minha eleição à prefeitura? dimenstein. serve para manter os lobos longe, ou bem perto (domáveis, interpretáveis e domesticáveis); mas não nasci pra cuidar dos lobos e, além do mais, quem vai conseguir domar o Oriente?
Escrito por claudio às 12h00
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