mini-orquestras do popolo
já pensou se tivéssemos em são paulo algum lugar como a casa del popolo, em montreal, no canadá? nessa mistura de bar, restaurante e "venue" para shows, uma das principais plataformas para bandas independentes locais e não só, o the winks (clique) toca direto, e dez dias antes do natal deste ano vai encerrar sua turnê pelo continente. a inveja, é claro, vem da capacidade de organizar, estruturar e, de fato, criar (conspirar?) uma cena consistente, que acontece e se movimenta em ambientes como este, em que consumo, socialização, arte musical de ponta e conforto são princípios atrelados, que atraem as pessoas a pertencer e viver.
porém, esse ciclo todo passa por (e pede) desenvolvimento cultural e civilização, coisa que eles esbanjam. o estímulo de pertencimento, encontro e interação com protagonistas ou outros figurantes desse cenário simplesmente faz sentido. ir lá faz sentido. respirar esse cenário-realidade, maduro e frutífero, faz total sentido. alguns ambientes, em são paulo mesmo, como o grazie a dio, ou o escondido berlin, o studio sp e até o exquisito rabiscam, à sua forma, com deficiências e eficiências diferentes, o modelo do popolo. mas nada (ou quase) acontece de fato, porque os outros requisitos e fatores - basicamente as pessoas, seu tipo de comprometimento e o nosso projeto de experiência cultural (civilização) - capengam. não correspondem ao astral de diversidade e "fome" que algo assim precisa para existir. é, nossa dificuldade de ser montreal _ e deveríamos, sim, ser montreal. faz sentido. eu pelo menos gostaria demais.
falando de música, o the winks é um duo de menino (chama todd: banjo, programações, voz) e menina (chama tyr: dança, outras paradas, voz) escoltado por uma pequena orquestra de membros rotativos. 'birthday party' _nome mais que sugestivo, pois é o the winks que eu chamaria para tocar em meu aniversário hoje_ é seu álbum de 2006, que deu continuidade a um folk-pop sinfônico singular: com um pé na psicodelia de cordas mais arrojada dos anos 60 e o outro, fincado no que os anos 80 plantaram de mais doce. o banjo garante a atmosfera folk-1850.
melodias muito, mas muito bem pensadas, vozes ginasiais, mas nem por isso ingênuas, configuram e reafirmam a tendência de pequenas orquestras de câmara indie que só brotam em montreal mesmo (arcade fire, final fantasy). e que, me parece, não fazem "nada" senão celebrar, mesmo que em tons escuros, e descrever sonoramente a própria juventude e a paisagem abstrata da cidade_o ato de senti-la e vivenciá-la, com todos os encontros que ela oferece. por que toda essa atitude de realização por lá está condicionada a dar ao pop um novo tratamento orquestral, hormonal e roots, pela coloração folk, eu não sei. e nem faço questão. antes de investigar a razão, prefiro ficar só com as evidências.
com tudo isso, talvez a prova dos 9, o "evento" de peso que embasa o que estou escrevendo, seja o shapes and sizes (clique). com vozes feminina e masculina se revezando e se misturando, mini-aparato orquestral em convivência com uma malha rústica folk e integrantes com espinhas que parecem ter sido seqüestrados da oitava-série de algum colégio, os shapes militam no mesmo esquema do the winks. estiveram no ano passado na minha lista (clique) de final do ano, na décima posição do top 10. era a época do seu louquinho disco de estréia, homônimo, lançado e comido por mim em agosto de 2006. este ano lançaram o segundo álbum, 'split lips winning hips a shiner', que deverá ganhar umas 8 posições da minha lista final em dezembro. já demorou para baixar.
http://www.myspace.com/winks