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Descobrindo Bandas


inlets

o encanto do o som da casa da árvore

acho que no terceiro post desse blog já vou entrar no meu assunto predileto dos últimos tempos. blog é uma coisa que serve mesmo como veículo da empolgação. então é nóis.

o brooklyn nova-iorquino de 2006 é tão musical quanto era cinematográfica a paris a partir de 1956. essa foi a era da nouvelle vague. de craques em transformar em arte a experiência urbana e a vivência de uma vida entupida da própria arte do cinema: falo de godard, rohmer, truffaut, sincronizados com a mallandrada de NYC. ela faz um som intenso da cidade, mirando a história nobre da música popular como farol. mais ou menos como os franceses em relação à sétima arte. os inlets estão na primeira classe desse "movimento".

quero dar um rolé pelo brooklyn qualquer dia, comprar uns discos de hip-hop instrumental numa lojinha estilo confraria cheia de bichos, uns pretzels no carrinho do tio judeu... e certamente trombar o daniel rossen num daqueles traillers de sorvete cartão-postal. falo do guitarrista rechonchudo do grizzly bear, persona de camisa xadrez da fazenda que é um mix físico-espiritual de stephen stills (crosby, stills & nash) com brian wilson (beach boys). rapazinho que assinou o disco mais impressionante deste ano (yellow house) com sua banda. depois quero subir no predinho ao lado e acompanhar um ensaio vândalo do miles benjamin anthony robinson no sétimo andar e um outro do department of eagles, duo anormal liderado pelo mesmo dan rossen.

mas seria massa cruzar o tal sebastian krueger também, que, como o grizzly bear, faz o folk (música de "raíz") americano se modernizar, icendiado pelo rock progressivo, pelo jazz e por uma leitura muito delicada e abstrata do que é viver na nova iorque pós atentados. a cidade é meio como uma paris pós-guerra. enfeitiçada por uma atmosfera poética e musical rústica, visceral e, naturalmente, nacionalista - muito banjo e um sentimento de "canyons" inflamando as músicas, sufjan stevens é um padrinho para eles, etc. uma atmosfera criada a partir da visão e da varinha mágica do talento desses jovens: reinventores sofisitcados e ao mesmo tempo fissurados pela história da música popular.

a cidade é como uma paris mais pacificada, repousando. mas um espaço de novos modelos e compromissos estéticos que partem de onde não há nada (basta ver o tv on the radio com uma fúria de homem das cavernas, mas ultrainteligente) ou do rudimento; e provavelmente de novos modelos e dimensões afetivas também, após a mutilação, a vulnerabilização e depois do nascimento de um novo espírito new-yorker.

a cidade muda, as relações entre as pessoas mudam. e, no ato, isso mexe com a criatividade, com a expressão. com a linguagem artística. daí tanto sentido de exploração que rola em NYC, aparentemente cada vez mais amada por esses artistas nesse ciclo de criação e invenção. selvageria punk quase industrial, música de western de estrada estilo 1859, sons e ritmos regionais, música erudita nacional, doo wap negro, psicodelia inglesa. tudo junto, tudo muito triunfalmente belo e original, como se na música tudo voltasse a ser reconstrução. (dan rossen na foto abaixo, coberto e ganhando um carinho grizzly).

o sebastian tem o inlets (primeira foto, no topo), bandaça folk-jazz delicada e ao mesmo tempo intrincada, reunindo flautas, banjos e tudo o que pode formar uma sinfonia folk. tem essa música decks up and above que me dá provas de que o gentle giant, banda inglesa progressiva da década de 70, está sendo recriado em estufa na varanda do prédio de sebastian. tipo, é o gentle giant, das vozes múltiplas e macias (kerry minnear - um dos grandes tecladistas e vocalistas do rock), só que na cidade de simon & garfunkel. pictures of trees é cuidadosamente narrada e linda.

diria a sebastian que a música dele é música de casa da árvore. construa a sua arquitetonicamente como um esconderijo/ museu. com sótão e porão (dentro da copa da árvore). escadas. more lá um tempo, escreva sobre suas histórias sentimentais num caderninho. acenda velas, lareira (cuidado pra não queimar tudo), cuide do jardim embaixo. abra a janela e olhe a cidade imensa, de vista atijolada à qual a casinha da árvore se reporta e à qual jamais sucumbe. esse é o sentido de tudo por aqui, acredito. o sentido que passa por esse som. casa nova velha, cidade nova velha, uma olhando para a outra. sebastian de novo na foto.

brooklyn é foda. e é aconselhável abrir os ouvidos e a alma para o som das profundezas desse país aí pro norte.

http://www.myspace.com/inlets



Escrito por claudio às 03h46
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ben + vesper

case com alguém que cante suas canções com você

eu sempre tive atração por bandas male/female cantando. mas as que me despertam mesmo são as bandas de casal: há algo especial no rock matrimonial do quasi (divorciados), do mates of state (acabaram de ter um filho), que me coloca mais dentro de um universo de sentimentos, de convivência. universo de uma banda, em outras palavras. os estilos são diferentes, mas as músicas dessas bandas são quase uma extensão para a casa dos cônjuges, para seu quarto, e isso é muito maluco.

bom, ben + vesper acaba de desbancar o mates of state no posto de minha couple band favorita. puta que pariu. é muito cool.

oriundos de new jersey, criam um art-indie rock raquítico (de poucos e sutis instrumentos) que me faz ir à igreja, no culto de domingo, com ben stamper e sua vesper, super devota; buscar seus filhos no colégio e fazer uma oração, depois da lição de casa e antes do jantar, com os pequenos e com o amigo daniel smith (líder do danielson famile), outro cristão da vanguarda na música avançada americana dos 2000's. do mesmo interiorzão de new jersey, eles compartilham espaço no mesmo selo (sounds familyre) e participam uns dos discos dos outros.

"Are you annoyed at me for wiping up the windshield with a waterlogged rag?"

especially we (que letra é essa??) é certamente uma das melhores músicas do ano (está alocada no myspace da gravadora/ selo familyre, só clicar). ela prova que o som de ben + vesper tem a vocação de tensas pinturas geometricas de acordes e vozes, que eles tracejam terna e quase silenciosamente. no domínio de cada cor e textura das telas, os dois acabam realizando peças de dissonantes consonâncias.

muito difícil catalogar essa banda, que parece um peter, paul and mary insanamente contemporâneo, com taxas de jazzificação acima do normal. ou um cream (ginger baker + jack bruce + eric clapton) vindo do passado, via máquina do tempo, para cobrar o sonic youth por toda a inspiração colhida (sem querer ignorar que a atualização moderna mais explícita do cream é, claro, o queens of the stone age, não o s.y).

as músicas da página deles (endereço logo abaixo) também são excelentes, mas um pouco mais antigas. especially we (baixe a mp3 que eu garimpei) é da nova safra, que será coroada com o lançamento de um EP brevemente. ah, o site da banda é bem divertido. vale a visita.

http://www.myspace.com/benandvesper



Escrito por claudio às 23h01
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half-handed cloud

brinquedoteca sonora americana

assim, pessoas lado b de um grande projeto podem criar seus grandes projetos também. essa figura, o homem por trás do half-handed cloud, anda de ônibus pelos estados unidos da américa assinando papelada de hotel como trombonista da banda do sufjan stevens, os illinoisemakers.

bem.

o sujeito parece ter saído diretamente de um filme do wes anderson, essa mente fantasiosa que reproduz os estados unidos lindamente através de uma vasto acervo de estereótipos complexos provindos da história do entretenimento. ou melhor: ele saiu de um deles - a vida marinha de steve zissou, os excêntricos tennenbauns.

criatura das profundezas da cultura americana, este rapaz californiano une o sonho americano lo-fi da década de 90 (guided by voices, yo la tengo, em termos) ao espírito americano de pom-pons psicodélicos em campos de futebol americano adolescentes sessentista: no quartinho em que grava as músicas, brian wilson dos beach boys certamente jogaria um videogame estilo toe jam & earl, fumaria um no esquema e comeria uns hamburgueres, entre uma sessão e outra de gemas pop-indie no talo.

o cara, john ringhofer (se alguém tinha alguma dúvida sobre sua procedência relacionada ao imaginário wes anderson, acabou), certamente sintonizado com sufjan, danielson e toda a cena brooklyn-folk, esculpe em seu som a unidade da música americana, em torno do encontro lúdico entre suas raízes e suas sonoridades. fazendo o banjo e o tecladinho barato (tipo casio) conversarem muitas vezes como uma pequena orquestra de brinquedo, o cara faz um som que eu só posso classificar como: refinado nacionalismo weird.

PS: pra não ficar só na ronda pelas instituições da américa, bom registrar que o sotaque synth-kinks (banda mais vitoriana - inglesa impossível) da 'foot on the brake', quarta música, é irresistível.

http://www.myspace.com/handycloud



Escrito por claudio às 22h54
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